Total de visualizações de página

terça-feira, 22 de março de 2011

O que é? Para que serve? A psicóloga Fernanda Violante Mendes escreve sobre a neuropsicologia, citando o perfil de crianças que se beneficiariam e os recursos utilizados

A Neuropsicologia é uma ciência que estuda a relação entre cognição, comportamento e a atividade do sistema nervoso. Investiga como diferentes lesões ou comprometimentos orgânicos causam danos em diversas áreas cerebrais. Auxilia no diagnóstico e tratamento médico, por meio de mapeamento das funções cognitivas, nos distúrbios de aprendizagem e comportamentais.
A neuropsicologia infantil tem como objetivo identificar precocemente alterações no desenvolvimento cognitivo e comportamental, tornando-se um dos componentes essenciais das consultas periódicas de saúde infantil. Requer instrumentos específicos e métodos de exame clínico que abrangem a avaliação tanto das funções cognitivas (atenção, memória, praxias motoras e ideatórias, linguagem, percepção, visuo-construção e funções executivas) como do comportamento infantil. Como há evidências de um número muito grande de crianças com disfunções cerebrais, inúmeras síndromes neurológicas e transtornos de comportamento, o exame neuropsicológico reconhece a necessidade de um programa cada vez mais adequado e planejado para a intervenção junto às dificuldades motoras e cognitivas.
A avaliação infantil é fundamental na definição de vários diagnósticos como os de distúrbios de natureza global, os distúrbios de todo espectro das disfunções cerebrais específicas, transtornos invasivos do desenvolvimento, os distúrbios de aprendizagem específicos como a dislexia ou déficit de atenção e hiperatividade. Cabe à avaliação não só estabelecer o perfil do déficit e de sua extensão funcional, mas também como se dá na criança o processo global do pensamento. Contribui também para uma delimitação prognostica, quando se esboça o perfil evolutivo do distúrbio aliado ao perfil evolutivo da criança em relação às funções cognitivas, psíquicas, comportamentais e mentais. Para tanto, investiga-se outros transtornos que não só os de ordem neurológica, mas também transtornos do comportamento como o transtorno bipolar, transtorno de ansiedade, transtorno depressivo, dentre outros.
Este exame estende-se também ao processo de ensino-aprendizagem, pois nos permite estabelecer algumas relações entre as funções corticais superiores, como a linguagem, a atenção e a memória, e a aprendizagem simbólica (conceitos, escrita, leitura, etc.). O modelo neuropsicológico das dificuldades da aprendizagem busca reunir uma amostra de funções mentais superiores envolvidas na aprendizagem simbólica, as quais estão, obviamente, correlacionadas com a organização funcional do cérebro. Sem esta condição, a aprendizagem não se processa normalmente, e neste caso, podemos nos deparar com uma disfunção ou lesão cerebral.
Isto ocorre muitas vezes em crianças que são rotuladas como preguiçosas, sonolentas, desconcentradas ou malandras. Em decorrência deste aspecto, uma das preocupações do neuropsicólogo é que crianças que apresentem algum distúrbio de aprendizagem, acabem tão punidas e mal interpretadas pelos pais e professores que decidam parar de estudar ou se tornem multirrepetentes. Vale ressaltar que a função de identificar os problemas não cabe somente ao professor em sala de aula, mas também aos pais, que devem acompanhar de perto cada fase do desenvolvimento dos filhos.
Vários são os recursos utilizados para a avaliação neuropsicológica infantil – anamnese, bateria de testes, observação clínica e exame de neuroimagem, que possibilitarão uma avaliação global das capacidades da criança, bem como das dificuldades encontradas por ela em seu desempenho dia a dia. Não se trata de "rotular" ou "enquadrar" a criança como integrante de grupos problemáticos, e sim de evitar que tais dificuldades possam impedir o desenvolvimento saudável do infante.
A neuropsicologia pode instrumentar diferentes profissionais, tais como médicos, psicólogos, fonoaudiólogos e psicopedagogos, promovendo uma intervenção terapêutica mais eficiente, pois fornece subsídios para investigar a compreensão do funcionamento intelectual da criança.
É recomendada em qualquer caso onde exista suspeita de uma dificuldade cognitiva ou comportamental (dificuldade na aquisição da escrita ou leitura, desatenção, agressividade, etc.) de origem ou não neurológica (epilepsia, traumatismo crânio encefálico, tumores, etc.).  Ela pode auxiliar no diagnóstico e tratamento de diversas enfermidades neurológicas, problemas de desenvolvimento infantil, comprometimentos psiquiátricos, alterações de conduta, dificuldade de aprendizagem, diagnóstico diferencial, entre outros.